A
MÁQUINA
Entrei outro dia numa discussão sobre
a responsabilidade da televisão pelo
emburrecimento do país. Meu interlocutor
era radical. Por ele, as televisões passariam
23 horas por dia desligadas...
Olha, a televisão é importante
demais, valiosa demais, para ser ignorada. Num
país que não tem o hábito
de ler, por não saber ou não entender
o que lê, a televisão deveria ser
questão de segurança nacional.
Nelson Hoineff jornalista, produtor e diretor
de Televisão, escreveu no site do Observatório
de Imprensa, o seguinte: Ver o Big Brother
durante uma hora, por exemplo, equivale ao mesmo
que ficar tempo idêntico diante do Late
Show do David Letterman? Meia hora do Programa
Vera Loyola tem o mesmo efeito que do Jornal
da Record, com Boris Casoy?
No sábado, o programa Manhattan Connection
mostrou uma hora de Paulo Francis, cujo 5º
aniversário de morte se deu na segunda-feira.
No mesmo momento, o canal AXN exibia, em ignóbil
dublagem visivelmente concebida para débeis-mentais,
uma luta combinada de ultimate fighting.
Dez horas de Francis seriam enriquecedoras a
cada segundo. Um minuto do programa da AXN seria
suficiente para transformar uma criança
normal num idiota completo. Qualquer estudo
sério sobre os efeitos da TV tem que
levar isso em consideração. A
televisão está deixando seu público
dependente não dos estímulos eletrônicos,
mas da ausência de idéias e acostumado
a um meio que está se omitindo até
mesmo do dever de informar a sociedade. E é
muito mais aí que nos cortes, edições
e ruídos repentinos que mora o perigo.
Nelson é homem da televisão. Sabe
o que diz.
A TV é tão importante quanto a
economia, a política, a educação
ou a saúde, ao funcionar como elemento
de integração e mobilização
da sociedade.
As duas maiores mobilizações de
nossa história aconteceram em 2002: 90
milhões de pessoas foram às urnas,
a maioria obrigada, para eleger o presidente
da república. E 22 milhões pagaram
para eleger o vencedor do Big Brother Brasil.
Vinte e dois milhões! Pagando!
Que outra ferramenta é capaz de uma mobilização
dessas?
Ignorar uma máquina com esse potencial,
é ingenuidade. Pra não dizer burrice...
A TV não é ruim.
Ruim, dispensável e nocivo é o
uso que estão dando a ela.
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