O CHEIRINHO
O que acontece quando você ouve Coração
de Estudante com o Milton Nascimento?
Não revive todo o drama da morte de Tancredo?
E a musiquinha do Senna? Não te leva
para as manhãs de domingo?
Dizem que quando vivemos uma experiência,
aquilo que é visto, ouvido, tocado, cheirado
e sentido é guardado em diferentes centros
sensoriais em nosso cérebro. Quando um
desses centros é acionado, imediatamente
dispara as lembranças nos outros centros,
fazendo com que revivamos uma experiência
antiga.
Com certeza já aconteceu de você
sentir um cheiro e imediatamente trazer de volta
lembranças perdidas, não já?
Quando sinto cheiro de manga, me imagino lá
no alto das mangueiras da minha casa dos anos
60 em Bauru. Quando é cheiro de pão
fresquinho, estou num café da manhã
daqueles de Gramado. Um cheiro de mar, e me
imagino caminhando por quilômetros entre
Tibau e Areia Branca, na costa do nordeste.
Cheiro de lança perfume, quando era só
uma brincadeira, me transporta para o Carnaval
espontâneo da Associação
Luso Brasileira de Bauru. Cheiro de fogueira
e volto para as festas de São João,
com pé de moleque e quentão. De
hipoglós, me lembro de meus filhos ainda
bebês abrindo um sorriso daqueles, desdentado,
brilhante e irresistível como só
os bebês sabem fazer. Um cheiro estranho,
de água semifervente e pena molhada me
lembra da minha avó depenando o frango
do almoço, enquanto eu olhava horrorizado
a cena...
Você também tem seus cheiros-lembrança,
não é?
Cheiros são os mais poderosos gatilhos
para memórias. Imagens e sons são
apagados com o tempo, mas os cheiros perduram,
abrindo uma possibilidade interessante: a de
gerenciar nossas memórias.
Eu já faço isso usando a audição.
Inclusive dou a receita no meu livro O MEU EVEREST.
Sempre que viajo costumo escolher com cuidado
a trilha sonora. Busco músicas que tenham
a ver com o lugar e ouço-as à
exaustão conforme a viagem vai acontecendo.
O resultado é que, anos depois, cada
vez que ouço aquelas músicas,
vivencio novamente os momentos-chave da viagem.
É um prazer só.
Pois decidi turbinar esse processo: a partir
de hoje vou prestar mais atenção
nos cheiros.
E, inspirado em Rudyard Kipling, que dizia que
a melhor forma de conhecer um país é
começando pelo seu cheiro, lanço
uma pergunta instigante:
Pra você, qual é o cheiro do Brasil
?